Deus criou a água, mas o homem fez o Vinho


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Pisando em Uvas


Por questão de elegância, restaurantes situados em regiões vinícolas costumam listar em sua carta, além dos produtores locais, vinhos de outras procedências. No entanto, é sabido que, por questão de inteligência e bom senso, estando na Borgonha deve-se beber pinot noir, em Bordeaux corte bordalês e, no Alentejo, a combinação local das 11.857 uvas que só nascem em Portugal. 

Seguindo a mesma lógica, deve-se pedir malbec em Buenos Aires, tannat em Montevidéu e caipirinha de caju em Salvador. Entretanto, a cartilha do bom freguês recomenda que, se o restaurante dispor de sua própria produção de vinho, esta será sempre a melhor opção.

Em alta enologia denomina-se chateau maison ou chateau de table grandes vinhos como aqueles que, por exemplo, são produzidos em certos quintais de tavernas gregas, bistrôs provençais e cantinas de Bento Gonçalves. 

Sua grandiosidade reside no fato de não ser possível nem necessário debater taninos, discutir notas olfativas ou filosofar acerca do estágio atual de evolução e tempo de guarda. Basta beber. Com certeza, irá harmonizar com a sugestão do orgulhoso chef-enólogo e, provavelmente, terá o melhor custo-benefício.

A quem deseja atribuir pontuação a um chateau maison é recomendado sempre dar a nota máxima, tomando por base a mesma lógica que Robert Parker e a Wine Spectator empregam quando avaliam certos vinhos com interesses em grandes mercados. E, para provar que não há nada de tendencioso no processo, aos da serra gaúcha convém fechar o cálculo em 99,9.  



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2013/08/chateau-maison-2013.html

Degustações verticais - 02Ago2013 14:00:00


Séculos antes de Yuri Gagarin, Abu Musa Jabir ibn Hayyn já havia subido aos céus. Não a bordo de uma vostok, mas pilotando al-ambiq, o fogão no qual destilou o elevante espírito do al-kohul.

Mas o grande alquimista, também chamado Geber, não foi o primeiro homem a se aventurar no domínio dos deuses. Os sumérios já haviam estado lá para conhecer a casa do herói Gilgamesh, também chamado Órion. Visitando musas mitológicas, os antigos gregos também passearam por lá.

Séculos antes do cosmonauta russo afirmar que a Terra é azul, o persa Omar Khayyán, não por acaso astrônomo e grande entusiasta do vinho e das paixões transitórias, descreveu o firmamento como uma grande taça emborcada.

À maneira de Geber, pode-se visitar o espaço a bordo de um Cinque Stelle. Do alto de seus 15.5 graus de al-kohul, chega-se rápido à constelação formada pelas uvas corvina, rondinella e molinara, também chamada Amarone della Valpolicella.

Para quê subir ao céu? questionam esses antiparnasianos degustadores horizontais de vinho. Ora direis, pergunte ao Bilac. 

À maneira dos contemporâneos de Platão, nós, que não tememos a cruz do sul nem a espada do gigante Órion, seguiremos radiantes em direção aos luminosos braços de Andrômeda e à cintilante cabeleira de Berenice.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2013/08/degustacoes-verticais.html

Da Solidão - 31Jul2013 22:16:00
Eduardo Lima


Éramos dois e o silêncio. Aos poucos foram chegando aromas, intimidade, lembranças. E a mesa se encheu de sorrisos, beijos, algazarra de crianças brincando felizes, fraldas trocadas no meio da noite, aniversários, cristais se encontrando, banhos de cachoeira, lugares mágicos, fotografias de encher um baú e gente. Tanta gente que o espaço ficou pequeno. 

No meio daquela confusão, pisquei para a taça de beaujolais e saí sem me despedir de todas aquelas reminiscências de uma vida acre-doce de comédia dramática argentina. Nem bem me levantei, esbarrei na imagem de Verônica que, mais uma vez, insistia em que retomasse o Pisando em Uvas. 

Voltei como saí, à francesa.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2013/07/da-solidao.html


O encontro deu-se assim: diante do balcão do único bar situado na praça central da aldeia, pedi à atendente pela tradicionalíssima fernê bianca. Ela olhou de modo esquisito e serviu dois dedos de um líquido escuro e espesso onde boiava uma pedra de gelo. Recusei e insisti com o miserável italiano de que disponho que gostaria mesmo era de uma fernê bianca. A garota deixou o líquido negro sobre o balcão, foi para o fundo do bar e retornou com a garrafa da qual leu, com leve irritação, os dizeres do rótulo: Fernet Branca, capice, Fernet Branca.

Pelos idos de 1845, o farmacêutico milanês Bernardino Branca misturou destilado de uvas a uma infusão contendo todas as ervas de que dispunha na farmácia, dizem que mais de 40. Inicialmente lançado como xarope contra cólicas menstruais, constipação intestinal e complicações digestivas, o elixir de alto teor alcoólico acabou se destacando mesmo pela propriedade de curar ressaca. Semelhante cura semelhante, dizia Samuel Hahnemann o fundador da Homeopatia e, deste modo, o digestivo ganhou o mundo, apesar do gosto extremamente amargo e do aroma de antiséptico bucal.


No primeiro gole você descobre estar diante da pior bebida do mundo. O segundo reforça essa constatação. Mas, se você for persistente e chegar ao terceiro gole, vai se dar conta de que já está física e  e emocionalmente dependente do genial licor produzido nas barbas da Barbera, a consagrada uva do piemonte.  Genial por trazer em si, ao mesmo tempo, o veneno, álcool a 45 graus, e a cura, 45 ervas aromáticas, muitas delas regenerativas da função hepática.


Seduzido e embriagado pela longa e escura noite espagírica perdi, além da vontade de beber vinho, amigos, emprego e boa parte do fígado.  Mas, se a Fernet é negra,  a vitis é vinífera e Baco sempre conduz ao caminho das uvas, ainda que por videiras tortas. Assim, retomei o gosto pelo vinho. Não por intervenção direta do senhor das uvas, é verdade. Mas por intermédio de outro santo espírito, a Fada Verde que, numa elevada conversa diante de uma garrafa de Absinto 72 graus, citou Buda e me apontou o caminho do meio.


Madame B. não chegou a terminar o primeiro gole e, lúcida, mantém sobre a negra Fernet Branca a primeira impressão.




Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2011/04/de-como-acabei-seduzido-pela-negra.html

Da Frugalidade - 02Mar2009 00:43:00


Feliz foi Meneceu. Numa tarde ensolarada o carteiro entregou em sua residência, na capital da Magna Grécia, uma carta de seu amigo Epicuro.

No pergaminho, hoje intitulado Carta sobre a Felicidade, o filósofo nascido em Samos confiava ao amigo ateniense os segredos para se apreciar a boa mesa e os demais prazeres da vida.

Para o grande mestre filósofo, muitas vezes mal interpretado e evocado em vão pela insaciável sociedade de consumo, prazer não é algo que deva ser buscado desmesuradamente e a todo custo. Isso só vai levar à dor, frustração e ao sofrimento. Para Epicuro, a idéia de prazer é, exatamente, viver sem dor, frustração e sofrimento.

Dizia Epicuro a Meneceu:
" Os alimentos mais simples proporcionam o mesmo prazer que as iguarias mais requintadas, desde que se remova a dor provocada pela falta. Em outras palavras: pão e água produzem o prazer mais profundo quando ingeridos por quem tem fome."

Lembrei de Epicuro quando comprei o vinho de colono Telmo e Sônia, produzido de modo artesanal na Serra Gaúcha.

Antes de abrir a garrafa, tive o cuidado de pensar na melhor harmonização para tal vinho. Preparei um farto sanduíche de mortadela e servi o líquido de cor violeta vibrante em copo de geléia de mocotó, repleto até a boca.

Convidei Madame B. para o repas mas esta, alheia à ética do prazer de Epicuro, declinou sem explicações.

A sós, e em profundo silêncio, fui comprovando de modo empírico os ensinamentos de Epicuro a Meneceu. Ao fim da garrafa, tendo atendidas as necessidades básicas do corpo, descobri que o espírito também havia sido satisfeito. E fui tomado por uma imensa e absurda felicidade.


Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2009/03/da-frugalidade.html


Dizem que vinho é poesia. Deve ser. Não o fosse, como explicar a profusão de aromas, cores e sabores que dele se desprendem em toda a sorte de análises, resenhas, notas e fichas de degustação criadas para transformar o amante do vinho naquele que pretende ser muito mais do que lhe confere, em significado e posição, a soma dos radicais que lhe restringem, o enófilo.

O que dizer da cor de ouro escuro de jóia antiga recém exposta ao sol, do aroma de feno cortado numa clara manhã de outono ou do sabor potente de taninos estruturados e bem domados como cavalos de raça em selas inglesas? Metáforas, diria o leitor. Inofensivas metáforas. Até ai tudo bem, não fossem as mesmas metáforas aglutinadoras de uvas e estrelas dos poemas de Neruda, substâncias perigosamente corrosivas se manipuladas sem a devida experiência.

O artigo parecia ser uma inocente reportagem sobre a Toscana. Não me lembro do autor, nem do que dizia. Recordo apenas da metáfora assassina.

... convém experimentar os saborosos supertoscanos da Casa Antinori, que se destacam por seus portentosos taninos atléticos e musculosos

Interrompi imediatamente a leitura e fui procurar o apoio de Madame B. Esta, para meu maior espanto, não apenas concordou com o autor, como também considerou bastante pertinente e sugestiva tal definição.


Confesso a você, querido leitor, que esgotei por completo meu arsenal de idéias sedutoras a respeito do vinho. Partidário dos populares e esqueléticos beaujolais, tenho perdido noites de sono pensando no inevitável momento em que, numa mesma mesa, terei entre mim e Madame B. um nobre italiano superdotado de taninos halterofilistas.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2008/11/metforas-ou-como-perdi-meu-poder-de.html



Os americanos costumam dizer que se você quer que uma coisa saia bem feita, faça você mesmo. Assim, os inventores do do-it-yourself criaram sua receita de como elaborar um super californiano, digamos assim, em apenas três etapas. Primeiro: lance ações em Wall Street. Segundo: escolha uma celebridade para dar nome ao vinho e enfeitar o rótulo. Terceiro: compre uma vinícola no Napa Valley.

Hoje é fácil encontrar nas boas casas do ramo Marilynn Merlots, Elvis Cabernets, Coppola Chardonnays e os não tão coloridos, mas não menos célebres, varietais da família Mondavi. Difícil mesmo é encontrar um autêntico home made wine criado e nascido nas férteis terras do Napa.

Metade das grandes vinícolas da Califórnia começou como vinicultura de subsistência, produzindo Zinfandels no quintal de casa para acompanhar o perú de ação de graças. O negócio prosperou graças ao terroir e ao empreendedorismo estadunidense. Alguns poucos produtores, no entanto, continuaram fazendo vinhos à moda antiga. Com carinho, paciência e o mesmo cuidado com que as avós daquela região assavam tortas de maçã.

Apenas a indicação 02 CAB escrita com esferográfica azul sobre a parte visível da rolha. Ganhei as duas garrafas de meu amigo Glynn Baker, produtor, junto com sua esposa deste autêntico californiano do Napa, nascido e criado no mesmo código postal dos Opus One e dos Caymus, seus mais renomados vizinhos.

Observando a garrafa nua, tive vontade de vestí-la com uma gravura de Picasso e dar-lhe um nome qualquer como Mouton ou Rothschild. Bobagem, pensei. Como bem dizem os franceses, o bom vinho não precisa de rótulos.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2008/03/o-bom-vinho-no-precisa-de-rtulos.html

Aquela noite no Café Anglais - 14Nov2007 23:16:00

No dia 7 de junho de 1867, Alexandre II, tsar da Rússia, Alexandre III, seu filho e sucessor, e Guilherme I, rei da Prússia e futuro kaiser do império alemão, protagonizaram em Paris o maior espetáculo gastronômico de que se tem registro nos anais da História. O palco de tal acontecimento foi o mítico Café Anglais, em Paris.

Para o jantar, que ficaria entronizado como o Banquete do Três Imperadores, foram preparados suflês de creme de galinha à moda do Reno, filés de linguado à veneziana, ensopados de galinha à portuguesa, beringelas à espanhola, lagosta à moda de Paris e ortolans, pequenos passarinhos, à moda de Rouen. A tradução em português fica a dever à magnitude do menu cujo texto original, por si só, justificaria a Comuna de Paris e a precedente Revolução Russa. Principalmente por essa parte:

Vins

Madère retour des Indes, 1846


Xerès, 1821

Chateau Yquem, 1847

Chateau Margaux, 1847

Chambertin,1846

Chateau Latour, 1847

Chateau Lafite, 1848

O Café Anglais foi citado no cinema em Festa de Babette. Após preparar um banquete digno de reis para um pequeno grupo de habitantes de uma vila camponesa, a chef Babette, quando perguntada sobre como foi possível consumir um prêmio de loteria em uma única noite, responde: " é o preço de um jantar para dez pessoas no Café Anglais." 

 Emblemático de seu tempo, o Café Anglais desapareceu junto com a época da qual foi protagonista. Foi demolido em 1913. Estive lá duas semanas atrás.

Não mais se localizava no Boulevard des Italiens, mas na pequena vila incrustada na Serra da Mantiqueira. Os chefs não mais eram Adolphe Dugléré e sua promissora assistente Babette, mas Maria Olimpia Fortes e Frederic Silva. De resto, tudo permanecia igual. A sopa de camarões da acima veio acompanhada de um jerez amontillado. Fazendo par com o Clos Vougeot da Borgonha ali do lado, codornas recheadas com foie gras e dispostas em pequenos sarcófagos à moda do Vale dos Reis do Egito.

Ainda seriam servidos queijos, sobremesas e um destilado de champagne, este último sob a noite estrelada. A confraternização ainda se estenderia pela abóbada celeste. Mas não fui até o momento em que os sisudos e sofridos camponeses são proclamados reis. Recolhi-me mais cedo. O sol não tardaria a raiar e alguém precisava ver como andavam as coisas no vasto Império.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/11/aquela-noite-no-caf-anglais.html


Vinhos lendários não são privilégio apenas dos povos europeus. Os brasileiros também ostentamos em seu breve curriculum de degustadores, nomes míticos que, ainda que tenham caído de moda, ocupam lugar de honra no inconsciente coletivo enológico nacional. Por isso, não se faz necessário recorrer a Jung ou Freud para se descobrir, por trás da máscara de bebedores da tradição da Borgonha ou da modernidade supertoscana, o arquétipo fundador do leite da mulher amada.

O Liebfraumilch representou mais do que um vinho para a cultura enológica brasileira, foi um rito de passagem. Da infância para a adolescência, com suavidade, doçura e a mesma ingenuidade. Produzido na Alemanha apenas para exportação, o doce vinho suave do Reno, considerado em seu país de origem como de baixa qualidade, conquistou o mercado brasileiro na qualidade de vinho importado e passou a se destacar na prateleira dos supermercados, não apenas pelo nome, mas também pela garrafa.

Sobre o mítico vinho da garrafa azul circulavam várias lendas. Uns diziam que era de alta qualidade pois ostentava o selo Qualittatswein, outros afirmavam que era produzido no norte da África e seria envasado em uma garrafa azul turquesa para justificar o preço que se pagava por ele. Fato é que o comerciante que teve a idéia de trazer o vinho e mudar a cor da garrafa criou fama, fortuna e a maior importadora de vinhos do país.

A primeira vez que jantei na casa da minha namorada levei um Liebfraumilch. Há pouco, dei de cara com esse garrafa azul safra 2003. Achei que não poderia haver no mundo vinho com a pior relação custo x benefício mas estava enganado. Diante do carrinho de compras, a mulher amada me perguntou o porquê daquele vinho. Expliquei. Dezoito anos depois, tinha daquele primeiro a impressão de um Montrachet.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/10/o-primeiro-jantar-na-casa-da-namorada.html


No ano de 1883, Don Melchor de Concha y Toro regressou da França com algumas mudas de parreira na bagagem. Tão logo chegou à propriedade situada a pouca distância de Santiago, tratou de plantá-las no vasto pomar. As jovens videiras cresceram, frutificaram e permitiram à Casa de Concha y Toro fabricar seu próprio vinho. Para proteger tal patrimônio, Don Melchor guardou seu vinho no porão de sua residência e, com o intuito de espantar visitantes mal intencionados, espalhou pela região que, por trás daquelas portas se encontrava o inferno e aquele que por ali se aventurasse seria recebido por el diablo em pessoa. Só que essa é a história oficial.

Sabia-se à época, que Don Melchor produzia vinhos de qualidade e que estes eram armazenados no porão da residência dos Concha y Toro. Mas também não era segredo o fato de que o nobre nutria grande simpatia por uma sobrinha, a bela e fogosa Doña Amelia. Também não haviam de passar despercebidos os estranhos ruídos - e gemidos - que vinham do porão nas noites em que, coincidentemente, Doña Amelia por ali pernoitava. Para que tal mistério não passasse sem explicação, foi criado o mito de que naquele subterrâneo não se escondia o Toro de Don Melchor nem a Concha de Doña Amelia mas os vinhos preferidos do inominável.

O tempo passou e a nobreza de Don Melchor reside hoje num dos grandes Cabernet Sauvignon do Chile, o corpo da fogosa Amelia chega até nós por meio de um dos melhores Chardonnays do continente, e o tal Casillero del Diablo hoje pode ser encontrado em qualquer supermercado. No Chile, é verdade, não dão grande coisa por ele. Ao contrário de Don Melchor e Amelia não se tem em grande conta o Casillero. Apesar de ser este o vinho servido àqueles que visitam à Casa Concha y Toro, é considerado um vinho menor. Pode ser. Para eles. Porque este Casillero Carmenere 2005 foi uma grande surpresa. E recebeu análise à altura nos blogs Vinho para Todos, Vivinhos, Le Vin au Blog e Viva o Vinho.

Carmenére é a uva que foi dada por extinta e, se hoje está mais viva do que nunca e fazendo bons vinhos varietais, foi graças aquele punhado de mudas que Don Melchor trouxe na bagagem. No meio delas se escondia a última Carmenére. Que vingou, cresceu e frutificou e deu vinhos como se fosse uma Cabernet Franc. Foi preciso que um enólogo francês a reconhecesse e trata-se de reabilitá-la. A singela Carmenére. A nobre uva bastarda que agora emerge, não das cinzas do inferno, mas da bem cuidada produção dos Concha y Toro.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/08/na-adega-do-diabo-com-as-benos-de-don.html


Na liturgia do vinho, Robert the wine advocate Parker opera milagres. Reza a lenda que Robert the wine apostle Parker, contra a unânime opinião de todos os críticos e especialistas franceses, qualificou como "soberba" a obscura safra de 1982 de Bordeaux. Quando estes vinhos atingiram o estágio de prontos-para- beber, o mundo calou-se de espanto diante da revelação proporcionada por aquelas garrafas. Confirmada a profecia, todas as garrafas que os dedos de Robert midas Parker passaram a tocar transformaram-se imediatamente em ouro para seus produtores.

Mas o maior das façanhas atribuídas a Robert the father, the son, and the holy ghost Parker ainda estaria por vir. A Robert the guy Parker é atribuída a responsabilidade de ter ensinado os americanos a beber vinho. O que, considerando a dimensão e a sede do mercado norte-americano, equivale à reversão do bíblico milagre da transformação da água em vinho operada por ocasião das bodas de Canaã.

O fato é que Robert Parker andou lendo este blog. Só encontro esta explicação para a recente coincidência de opiniões entre o Santo e este pobre pecador que vos escreve. Em entrevista à imprensa brasileira, Robert Parker andou declarando que o vinho bom é aquele que você gosta, que ótimos vinhos encontram-se em todas as partes do mundo e que, ora vejam vocês, a razão para que se pague mais de 100 dólares por um vinho não é outra senão a de adquirir a experiência necessária para identificar os maravilhosos vinhos que situam-se na faixa de 15 e 35 dólares. Touché.

Recém-convertido ao inconsciente coletivo enológico mundial, junto-me à legião de seguidores do maior dos profetas. Como testemunha fiel que sou, afirmo que Robert amém Parker já degustou de tudo, Robert amém Parker tudo sabe, tudo ouve, tudo vê, Robert amém Parker multiplicou os pães, Robert amém Parker andou sobre as águas, Robert amém Parker ressuscitou Lázaro, Robert amém Parker...



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/06/incrvel-histria-do-homem-que.html



Em 1787, o luxo da corte de Luís XVI e Maria Antonieta arrasavam o império francês, Mayer Amschel Rothschild iniciava a construção do maior império financeiro mundial e a idéia de mercado não era diferente de uma feira local. Nos campos arrasados pela fome, mesmo antevendo a revolução que mudaria os rumos da França e do velho continente, as uvas de Bordeaux seguiam seu inexorável destino: as barricas de carvalho.

Depois de 220 anos escondida no porão do chateau, tendo sobrevivido a uma revolução francesa, duas guerras mundiais e à voracidade de um mercado que se converteu em uma grande feira mundial, uma garrafa de Chateau Lafite Rothschild safra 1787 é posta à venda na internet por três milhões de dólares:www.antiquewine.com.


Penso naquelas pobres uvas, cultivadas, colhidas e pisadas por servos com raros direitos e plenos deveres e dívidas para com o nobre senhor do castelo. Pois são essas uvas que, mesmo não tendo freqüentado os banquetes de Versalhes nem tendo feito companhia aos brioches de Madame Antonieta, seguem agora para a guilhotina burguesa. Resta saber se o abastado comprador deste Chateau Lafite Rosthschild 1787 terá a coragem de decapitar a cabeça e verter o sangue da última testemunha viva do Antigo Regime.


Sem meios nem fundos para resgatar tal garrafa, decido brindar à sua sorte na companhia de um de seus descendentes, o chileno Los Vascos, produzido pela Casa dos Barões de Rothschild no novo mundo. Um vinho que, apesar do sobrenome, tem aroma de liberté, sabor de egalité e deixa na boca um gosto de fraternité. Além das melhores impressões, o Chateau Los Vascos também deixa em seus compradores, tirando os 45 reais que se paga por ele, a sensação de se ter feito um verdadeira barganha e conseguido por ele um inacreditável desconto de 3 milhões de dólares.




Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/05/o-vinho-de-3-milhes-de-dlares.html

Vinho com prescrição médica - 26Abr2007 15:14:00


Aparício Torreli, o finado Barão de Itararé, já advertia: o fígado faz muito mal à bebida. Tal fato pode ser comprovado na farta literatura que, desde a Magna Grécia, relata as propriedades medicinais da bebida, em especial do vinho. Hipócrates, o pai da medicina, já o prescrevia como panacéia para a cura dos mais diversos males. Estudioso da medicina hipocrática, Galeno foi além e decifrou, há quase dois mil anos, as propriedades farmacológicas e terapêuticas do vinho.

Quando, no século VII, o alquimista Geber ( Jabir Ibn Hayyan) inventou o alambique, imediatamente surgiram metáforas como elixir da vida, água da vida, spirit e acqua-vitae para qualificar o produto final de seu invento, o álcool. Paracelso aprofundou os estudos sobre a grande descoberta dos alquimistas islâmicos e influenciou outro prêmio nobel da medicina medieval, Arnaldus de Villa Nova, que retomou os estudos de Galeno e compilou o maior tratado sobre as propriedades medicinais do vinho já existente, o Liber de Vinis.

Atualmente, a opinião científica é unânime em afirmar os benefícios terapêuticos do vinho. Desde os anti-oxidantes presentes nos taninos, até o resveratrol, substância também presente nos tintos que aumenta a potência muscular e reduz o esforço cardíaco. Sobre o resveratrol, em pesquisa publicada no site
www.cell.com
, diz o especialista em biologia celular e molecular, Johan Auwerx: " O resveratrol faz de você um atleta sem nenhum esforço ou exercício." Hipócrates e Galeno não teriam ido tão longe.

O fato é que tenho sido acometido de insistentes dores de cabeça após ingerir certas doses de vinho. Diante da receita prescrita por Hipócrates, Galeno, Geber, Paracelso e outros fundadores da moderna medicina, tendo a concordar com o nobre Barão de Itararé quanto à natureza do problema: a cabeça tem me feito mal ao vinho.




Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/04/vinho-s-com-prescrio-mdica.html


Indagado sobre as razões que o levavam a praticar o nobre esporte do montanhismo, um dos mais célebres escaladores de todos os tempos cunhou a frase que entrou para a história: "Subo as montanhas porque elas estão lá". E mais não disse.

Apesar de não ostentar em meu currículo a conquista de um monte sequer, discordo de tal afirmação. Montanhas devem ser escaladas para que se possa apreciar a vista que se tem lá de cima. Afinal, que outra razão justifica o insano desejo que nos move na direção dos elevados vértices que pairam desafiadores sobre a serena planície do cotidiano? Que outro motivo explica a necessidade de amadores como nós ousarmos atingir as mais elevadas e rarefeitas alturas dos míticos cumes da cordilheira de Bordeaux, ou dos sagrados santuários que despontam no altiplano da Borgonha, ou ainda, dos não tão famosos mas não menos elevados zênites do himalaia alentejano. Deve haver motivo maior do que o simples fato dele estar lá para que nos lancemos na vertiginosa direção de um Chateau Margaux.

Organizamos uma expedição. O alvo era um dos grandes everestes de Bordeaux, o legendário Chateau Haut-Brion 86, com altitude superior a 600 euros. A empreitada, dado o seu alto custo, foi devidamente cotizada e planejada com precisão e rigor alpinos: decantação duas horas antes, champagne inicial para dar coragem e um cordeiro assado com purê de maçã para sustentação. Com as estrelas do firmamento por testemunha atingimos o cume. Da linha divisória entre o céu e a terra, registrei a façanha na foto acima.

Montanhas, como bem intuiu o profeta Maomé, não saem do lugar. Cabe a nós o desafio de nos movermos até elas se quisermos conhecer o mundo além da serra gaúcha e outros acidentes geográficos. Acima de tudo, é preciso dar a devida atenção aos montes chilenos, argentinos, portugueses, espanhóis, australianos e neo-zelandeses que, das mais diversas alturas, destacam-se da paisagem com honestidade e altivez andinas. E, no caso de um desafio maior, é preciso fazê-lo com parcimônia e sabedoria. Como explica a filosofia zen, o sábio tem o dever de, uma vez na vida, subir o Monte Fuji. Somente aos não-sábios é permitido subir mais de uma vez.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/03/da-necessidade-de-escalar-montanhas_28.html


























Meu amigo Raoul me pergunta sobre vinhos da Catalunha. Da Catalunha, respondo, só conheço as cavas, grandes espumantes feitos na terra onde a árvore genealógica de meu amigo tem sólidas raízes. Mas, como múltiplas e infinitas raízes também tem a árvore do conhecimento, nunca se sabe quando tropeçaremos em uma de suas extensas ramificações.

Não é de hoje que o touro é um animal de grande simbolismo para os povos mediterrâneos. Minos, o rei de creta, mantinha um em seu labirinto. Disfarçado de touro, Júpiter seduziu a bela Europa. Em Alexandria, os súditos de Cleópatra reconheciam no boi ápis a representação do deus Osiris. Assim como, em Argos, as mulheres viam no touro que emerge das águas a representação de Dionísio, deus do vinho.

Gregos e romanos, os poetas clássicos sempre associaram a força do touro à potência do vinho. Pegando carona, Ernest Hemingway escreveu que o gosto pelas touradas é proporcional ao gosto pelos vinhos. Era de se imaginar, portanto, que na região onde se encontra a Monumental Plaza de Touros houvesse vinhos mais robustos do que aqueles que o escritor norte-americano considerava como sendo menores e, por esta razão, indicados para iniciantes em vinhos e touradas, os vinhos frisantes.

Eu não sabia. Mas, há 54 anos é produzido em Barcelona este Sangre de Toro, naturalmente, tinto e robusto. Feito com uvas garnacha e cariñena é descrito com um vinho de aroma e sabor mediterrâneos, ideal para acompanhar a aromática e saborosa culinária catalã. Agora sei. E por isso, ergo uma taça na direção da Sagrada Família e faço um brinde a Raoul, Gaudí, Picasso e a este bravo herói que verte sangre e coragem nas plazas de Espanha, el toro.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/02/da-monumental-plaza-de-toros-esta.html

Medalha de ouro em Bratislava - 08Fev2007 00:29:00





















Tão certa como qualquer uma das três fundamentais leis de Newton é a certeza de que a maior distância que se pode percorrer no universo enológico é aquela que separa Mendoza, na Argentina, do Vale dos Vinhedos, no sul do Brasil. Afastados por intransponíveis mil ou dois mil quilômetros, estão vinhos de espécies - e principalmente qualidades - tão distintas como animais que começaram a se diferenciar quando os continentes ainda eram uma única Gonduana. Mas este postulado científico dá ares de que será brevemente revisto.

Denominação de origem controlada é uma espécie de atestado de boa procedência no mundo dos vinhos. A maior parte das DOCs está situada no continente europeu, berço dos Bordeaux, Chianti, Rioja, Douro, Alentejo, Champagne, Tokay, Toro e uma grande variedade de nascedouros privilegiados. Fora da Europa, no entanto, somente duas indicações geográficas gozam de tamanho prestígio: a região do Napa Valley, nos EUA, e o Vale dos Vinhedos, na Serra Gaúcha.

No exato momento em que os produtores gaúchos celebram a recente conquista, fui convidado para analisar, em conjunto com os blogs Vivinhos, Vinho para Todos e Viva o Vinho, este Lovara Cabernet Sauvignon 2005, filho legítimo da mais nova DOC. Sob o peso de tal responsabilidade, optei por proceder uma análise científica do produto que, recentemente, conquistou medalha de ouro no décimo-quinto Vinoforum International Competition 2006, na República da Eslováquia. 

Cor: azul fechado como o céu de Bento Gonçalves, sem o brilho das estrelas de Gramado. Aroma: cordial, mas sem a simpatia da rainha da uva de Caxias do Sul. Gosto: correto, mas sem a franqueza de uma cozinha tipicamente italiana da região. Resultado: medalha de ouro em Bratislava. 

Jantando com a família no interior do Wyomming, Robert Parker poderia dar uma nota melhor. Almoçando com seu gerente de banco, Michel Roland também. E quem sabe a impressão que teria este Lovara num pequeno restaurante de Canela? 

Conclui-se e confirma-se com esta análise que a ciência, não importa se enológica ou quântica, depois de Einstein, ficou muito relativa.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/02/da-teoria-relatividade.html





















Os arqueiros do poderoso exército persa treinavam a pontaria sob o olhar atento do rei Djemchid quando uma cena incomum quebrou a concentração daquele momento. Nas proximidades da zona de tiro, uma serpente envolvia e sufocava uma majestosa ave. Sem pestanejar, o soberano ordenou que fosse plantada uma flecha certeira na cabeça do ofídio mal-intencionado. Agradecida, a ave depositou aos pés do nobre comandante um punhado de sementes que este, imediatamente, mandou semear. 

A desconhecida planta germinou e o suco de seus frutos passou a ser muito apreciado pelo rei. No entanto, passado algum tempo, este suco ficava amargo e acabava esquecido pelo palácio. Certa noite, para se ver livre de uma brutal enxaqueca, uma das escravas favoritas do rei desejou morrer e bebeu de um só gole todo o conteúdo do tal suco estragado. Ao contrário do efeito pretendido, o suposto veneno a deixou mais leve, muito mais solta e imensamente feliz. Impressionado com tal entusiasmo, Djemchid liberou a todos a bebida, que passou a se chamar Darou-é-Shah, o remédio do rei. E assim, do harém para o povo, o vinho conquistou a Pérsia. 

Quando fundou Persépolis, o grande Cambises, descendente de Djemchid, mandou plantar em todo o entorno da cidade, as vinhas que deram origem aos célebres vinhedos de Shiraz, cidade das rosas, dos poetas e do vinho, situada no atual Irã.

Como num conto das mil e uma noites, em visita a uma loja de vinhos, dei de cara com aquela garrafa mágica. Já em casa, enquanto admirava o rótulo deste Quinta do Valdoeiro Syrah, ou Shiraz, percebi que a rolha lentamente sufocava seu vibrante conteúdo. Com a precisão de um arqueiro persa, libertei o majestoso bairrada de raízes mouras. Agradecido, o vinho me presenteou, não com sementes, mas sussurando tal qual uma sedutora Sherazade a mais bela das pouco conhecidas quinze ruba'iyat, quadras da composição poética tradicional persa, que o maior dos poetas ocidentais, Fernando Pessoa, fez em homenagem a seu correspondente oriental, o persa Omar Khayyam.

Troca por vinho o amor que não terás
O que esperarás, perene o esperarás
O que bebes, tu bebes. Olha as rosas.
Morto, que rosas é que cheirarás?

Comovido e imensamente agradecido, prometi a este incomum vinho português 100% shiraz que faria da primeira linha desta ruba'i a mais inspiradora e reveladora epígrafe que um romance jamais teve.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/01/troca-por-vinho-o-amor-que-no-ters_22.html



Dizem que a taberna foi a maior invenção do homem. Bobagem. Quem inventou a taberna foi o vinho. A agricultura ainda engatinhava quando a taberna surgiu com o único propósito de servir vinho a quem de vinho necessitasse. Não por acaso, entre seus mais ilustres frequentadores figuram os sábios gregos que primeiro embalaram o berço da moderna civilização. Acredita-se que, no interior de uma taberna, foi proferida pela primeira vez a palavra democracia. E outros vocábulos ainda mais nobres como os elogios dedicados às musas pelo poeta grego Alceu e seus predecessores romanos Plauto, Horácio, Cícero e Tito Lívio.

Na clássica penumbra da taberna nasceram conspirações, revoluções e juras de amor. Em 1803, um volume com cerca de 200 poemas e canções medievais foi encontrado na abadia de Benediktbeuern, na Baviera. Soube-se depois que se tratava de uma compilação de canções originais do século XIII. Consideradas profanas, uma vez que fugiam dos temas litúrgicos e gregorianos, as canções populares de Beuern foram publicadas com o título de Carmina Burana e tornaram-se eruditas. Musicadas pelo compositor alemão Carl Orff com certo tom apocalíptico, retornaram aos ouvidos do povo como trilha sonora de filmes como A Profecia e Excalibur, comerciais de tv e, em última instância, como tema recorrente do núcleo maquiavélico da novela das oito.

Entre as Carmina Burana, há canções satíricas, cantigas de amor e aquelas dedicadas à velha e boa taberna. Na canção In Taberna Quando Sumus, os desconhecidos poetas cantaram o motivo pelo qual freqüentavam o estabelecimento: 

Quando estamos na taberna não falamos sobre a morte/jogamos os dados em nome de baco/Alguns perdem suas roupas, alguns as ganham, alguns se vestem com sacos. 

Por quem bebiam: 

bebemos pelos prisioneiros, três vezes pelos vivos, quatro vezes por todos os cristãos, cinco vezes pelos fiéis mortos, seis vezes pelas irmãs vaidosas, sete vezes pelos soldados da floresta, oito vezes pelos irmãos perversos, nove vezes pelos monges dispersos, dez vezes pelos navegantes, onze vezes pelos discordantes, doze vezes pelos penitentes, treze vezes pelos viajantes. 

E ainda, quem bebia: 

bebe a senhora, bebe o senhor, bebe o soldado, bebe o clérigo, bebe ele, bebe ela, bebe o servo com a serva/bebe o ativo, bebe o preguiçoso, bebe o branco, bebe o preto, bebe o estabelecido, bebe o vagabundo, bebe o ignorante, bebe o sábio/ bebe o pobre, bebe o doente, bebe o exilado e o desconhecido, bebe o menino, bebe o velho, bebe o chefe e o diácono/bebe a irmã, bebe o irmão, bebe a anciã, bebe a mãe, bebe esta, bebe aquele, bebem cem, bebem mil.

Poetas, musas, cavaleiros, vagabundos, ciganos, saltimbancos, camponeses, boêmios e boêmias, frades e errantes peregrinos, sempre encontraram abertas as portas da taberna. Sem culpa, sem pecado, sem distinção de casta, aroma, cor, potencial de guarda e persistência dos taninos. Sem pompa, circunstância e a estrutura das viti vinifera. Mas com a alegria e o bom humor de um garrafão de cinco litros de uva americana.

Viva a taberna! Viva Isabel! Viva Niagara! Viva Carmina! Viva Burana! E viva Omar Khayyan! Assim falou o sábio geômetra e gigante poeta persa: Nosso tesouro? O vinho. Nosso palácio? A taberna. Nossos companheiros? A sede e a embriaguês. Ali ignoramos a inquietude, porque sabemos que nossas almas, corações, taças e roupas maculadas nada têm a temer do pó, da água e do fogo.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2007/01/isabel-niagara-e-os-carmina-burana.html



Recentemente foi descoberta no Irã, antiga Pérsia, uma ânfora contendo em seu interior resíduos de um vinho com 3.500 anos de idade. Escavações em Catal Hüyük, primeira cidade da humanidade encontrada na atual Turquia, revelaram sementes de uva datadas de 8.000 a.C. Acredita-se que antes da última era glacial os povos de Cro-Magnon, inventores da arte moderna, serviam vinho nas concorridas vernissages de Lascaux. 

Arqueólogos confirmam o fato de haver, na grande maioria das escavações, registros da presença do vinho em todas as sociedades humanas. Na tumba de Tutankamon foi encontrada uma ânfora contendo a inscrição "de muito boa qualidade". 

A videira e o produto da fermentação de seu fruto são, provavelmente, anteriores ao surgimento da espécie humana. No entanto, foi o homem quem deu sentido à bebida. Estudos científicos e observações pouco menos acadêmicas convergem ao apontar no mito do paraíso celeste uma clara alusão ao encontro do homem com o vinho. 

A ilustração acima é um fragmento do teto da Capela Sistina e mostra Eva no momento em que recebia da serpente o fruto proibido. Analisando a obra de Michelangelo, estudo de botânica (Drauft, 1987) revela ser aquele o caule característico da vitis rupestris, espécie de videira americana que, ao contrário da vitis vinifera européia, não é considerada apropriada para a produção do vinho de qualidade. Tal afirmação encontra eco nas palavras de outros estudiosos quando estes apontam que o fruto proibido descrito no velho testamento, e comumente associado à maça, já ter sido interpretado como sendo um figo ou pêra ou mesmo um cacho de uvas. 

Apesar da tentadora combinação pêra-uva-maçã, o mito do Paraíso Perdido ( Milton, 1667) adquire lógica mais consistente quando analisado sob a ótica do vinho. Neste sentido, teólogos e juristas concordam que a simples coleta de uma maça não é motivo para o castigo divino. O grande pecado aqui é o conhecimento. Vivendo no jardim das delícias de modo inocente, Adão e Eva, em certo momento, transgridem as regras e tomam para si o conhecimento que os distancia das outras criaturas ao mesmo tempo em que os torna mais próximos do Criador. 

Ora, tal conhecimento, simbolizado pelo fruto proibido, estava disponível no jardim das delícias. E a sábia serpente não pede que Eva o tome somente pelo prazer de vê-los cair em desgraça. Por sua consistência biológica, o homem já estava predestinado ao conhecimento (De Havers, 1972). A questão aqui é o modo como tal conhecimento foi utilizado. 

Para outros estudiosos, a descoberta de textos apócrifos nas cavernas de Qunram joga luz sobre a questão: " e assim o Criador ordenou à serpente que instruísse Eva sobre como beber do conhecimento contido no fruto..." . Há quem interprete assim a continuação deste fragmento: 

" Com orgulho, a serpente e o Criador assistiram ao recém instruído casal beber do vinho do conhecimento. No entanto, como as uvas eram das castas Isabel e Niagara ( por conta da videira americana ) Adão teria achado o vinho doce e com baixo potencial de envelhecimento, motivando Eva não só a concordar como também não poder deixar de comentar o ridículo bouquet e a lamentável ausência de taninos"

O resto da história está no Velho Testamento mesmo: a inevitável expulsão de ambos do Paraíso e o comentário "eis que o homem se tornou como um de nós, conhecedor do bom e do mau" proferido pela serpente, para muitos, o primeiro enófilo de que se tem notícia.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2006/11/onde-se-explicam-o-fruto-e-as-razes-da.html






















Além da capacidade de transformar chumbo em ouro e de esticar seu período de permanência neste mundo pelo tempo que quisessem, os sábios alquimistas detinham um fantástico poder de síntese. Com uma única frase, resumiam todo o imenso conhecimento adquirido em vários séculos de dedicação à Grande Obra. Solve et Coagula, dissolver e se transmutar, é o maior dos segredos da Natureza, como bem intuiu Lavoisier. 

Segredos, é sabido, há em todas as artes. Como naquela que consiste em combinar o vinho com a comida e seus temperos ocultos. Sobre a arte da harmonização de vinhos e jantares, há muito mais livros, teses e tratados do que se pode ler em uma única vida. E, no entanto, tal conhecimento pode ser expresso em poucas palavras, uma única frase que o bom senso me autoriza revelar. 

O sol já declinava no horizonte quando entrei naquela espécie de mercearia na pequena vila incrustada nas montanhas do Luberon, coração da Provence. Peguei duas garrafas do vinho daquele lugar, que com meus poucos e contados euros podia facilmente comprar, e tão logo me dirigi ao caixa fiz o que na hora imaginei ter sido uma grande besteira. Não sei onde estava com a cabeça quando interpelei a senhora rechonchuda e de faces rosadas para perguntar aquilo que todos os habitantes do campo já sabem antes mesmo de nascer. Com que comida deveria provar aquele vinho? 

Não sei se foi pelo meu francês precário ou pela impertinância da pergunta, mas ela não respondeu de pronto. Me fitou séria e calada por uns dois ou três minutos que pareceram uma eternidade. Eu pensava em pedir desculpas, devolver as duas garrafas à prateleira e sair correndo dali quando ela abriu um imenso sorriso e, com a doçura que se dedica às crianças e àqueles que ainda estão aprendendo, falou alguma coisa como avec le tout que tu plus aime

Então era isso. Um bom vinho é aquele que você gosta e que, por isso, combina perfeitamente com tudo aquilo que você também ama. Ou seja, para dominar os segredos da alquimia de sabores a que chamam harmonização, bastam intuição e bom gosto. Iluminado pela luz do Luberon, fui jantar em um restaurante que outrora abrigara uma abadia. 

Para comemorar minha nova condição de adepto, pedi um Chateau Simone, que por lá se denomina o grand cru da Provence. Em algum estado entre as coisas simples da vida e o êxtase místico, fui despertado por uma observação daquela que amo. Naquele momento, logo após ouvir o comentário de que o jantar estava simplesmente divino, compreendi mais uma das sábias frases dos antigos filósofos herméticos. Tudo o que há na terra tem seu correspondente no céu. E vice-versa.




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Um brinde ao comandante - 25Out2006 17:50:00

Durante visita ao Chile, na década de 70, Fidel Castro foi apresentado por Salvador Allende ao companheiro Canepa Finissimo Cabernet Sauvignon. Em poucas horas de conversa, tornaram-se amigos de infância e ficou combinado que um contêiner deste Canepa desembarcaria na Ilha de Cuba, para ajudar na construção daquela república de médicos, músicos e bailarinas não subserviente ao grande irmão do norte. Quis o destino que tal fato nunca acontecesse, pois o invejoso general Pinochet assumiu o poder em Santiago e, ato contínuo, cancelou a remessa. 

Muitos são os vinhos do Chile, todos de grande valor. Em sua escolha, Fidel mostrou grande sabedoria e integridade. Mesmo entre os Canepa, poderia ter optado por um Magnificum, orgulho maior da vinícola, o que teria sido um arroubo de vaidade não condizente com a pessoa e a proposta do líder. Também poderia ter optado por um Canepa Classico, este que se encontra facilmente em qualquer supermercado, mas teria sido uma demonstração barata de demagogia. Prevaleceu a honestidade, o caráter, o bom senso, o equilíbrio e a sutileza deste Canepa Finissimo. 

Não é um vinho popular. Custa perto de 70 reais, um quinto do salário-mínimo no Brasil ou duas vezes o salário de um médico em Havana. Sem julgamentos, pois acredito que estes somente cabem à população de Cuba, e sem perder a ternura jamais, com uma taça deste Canepa Finissimo, brindo à saúde do velho comandante. Com a mão esquerda. Sempre. Até porque, eu sou canhoto.



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E pur si muove - 19Out2006 02:28:00




















Jacques Toutbon é um sujeito bem intencionado. E no entanto, atacam-no por defender a língua francesa dos anglicismos impostos pela tecnologia. Apesar de perseguido, o Ministro de le Culture, des Loisirs et de la Francophonie ostenta algumas vitórias. 

Por toda a França diz-se ordinateur para computador, le logiciel para software, le materiel para hardware e courrier electronique no lugar de e-mail. A Sony não deve gostar muito, mas walkman, na França, chama-se le balladeur. Por tais idéias, a moderna inquisição tachou o ministro de herege e deu-lhe o apelido de Jack Allgood. 

Solidário à causa, também eu sou perseguido pelo braço do santo ofício enológico por confessar publicamente o que consideram um pecado digno de se arder na fogueira: eu gosto de Beaujolais. Querem atirar ao fogo minha carteira de sommelier amador quando digo isso. Que joguem. Já está vencida e esquecida numa gaveta há muito. Nos restaurantes em que ela vale algum desconto no preço do vinho ou dispensa a cobrança da rolha, minha mulher defende a família. 

Não vejo motivo para que se considere menor um vinho que nasce no região que faz fronteira com os célebres vignobles de Chateaneuf du Pape e os ainda mais célebres pinot noir de Beaune. Se fosse em La Mancha seria tudo um terroir só. Dizem que é por causa da Gamay, a prima-pobre das uvas, com seu corpo esquálido e seu subdesenvolvido aroma de banana. 

Não vejo menor corpo num Moulin-a-Vent do que em qualquer outro produto da Borgonha e adjacências. Mesmo este Joseph Drouhin, que não é de produtor mas sim de um negociante, provou o valor de um grand cru de beaujolais. E custou a metade de um nouveau e quase o mesmo preço de um villages. Pelo menos aqui no Brasil. 

Enquanto na França com poucos euros compra-se um beaujolais recém engarrafado, aqui não sai por menos de cem reais. Ou seja, heresia cometem os devotos da moda que todos os anos, religiosamente, pagam mais de trinta euros por um vinho de seis. 

E é tão somente por essa razão que, como deseja o santo ofício, eu retiro o que disse sobre gostar de beaujolais. Mas não por falta de corpo, aroma de banana ou qualquer defeito que queiram atribuir a este vinho. Mas pelo custo do marketing. Ou, como quer o ministro Tiago Tudobom, o valor extra que se cobra pela mercadologie.



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Carpe diem, carpe vinum - 10Out2006 16:56:00

Numa manhã sem grandes acontecimentos meu avô despediu-se de minha avó e faleceu pouco antes da hora do almoço. Não chegou a completar um século de existência, como todos esperávamos, mas chegou bem perto. Entre os seus pertences havia duas garrafas de vinho. 

Guardadas no fundo de um armário há pelo menos trinta anos, ambas foram a mim confiadas por minha avó. Assim, acabei herdando um porto Sandeman Partner's e esta magnífica garrafa de Concha y Toro Chilean Riesling cosecha 1974. Fazer o quê com um riesling de 1974 em 2006? Jogar no lixo, diriam enólogos e enófilos com o pragmatismo que lhes é peculiar e ainda acrescentariam, a título de erudição, que branco desta idade só um Montrachet e olhe lá. 

Abri a garrafa, evidentemente. A cor variava entre o alaranjado de um chá inglês passado do ponto e o ocre ferruginoso das terras de Siena. O aroma, alguma coisa indefinida e ligeiramente ácida sem no entanto aparentar vinagre. Provei. Naturalmente, não havia mais vinho naquela garrafa, tampouco sua sombra ou degeneração. Repousava ali um retrato em sépia de grandes realizações não acontecidas. Na boca, percebia-se facilmente o gosto meio doce meio amargo de tudo aquilo que poderia ter vindo a tona de maneira esplendorosa e, no entanto, não passou da condição de potência. 

Vinhos que morrem na garrafa são como paixões que não se concretizam porque uma das duas partes chegou atrasada ao que teria sido o encontro de suas vidas. Vinhos devem ser devidamente degustados no ponto ideal de sua curva, no estado de maturidade, depois da juventude e antes da decrepitude, diriam aqueles outros, os pragmáticos. 

Digam o que disserem. Em um único gole daquele que um dia foi um concha y toro, podia se experimentar, ainda que por breve instante, o vislumbre do quão espetacular teria sido beber daquele chilean riesling cosecha 1974. Não importa se na juventude, maturidade ou em que ponto de sua curva. Mas sim, numa daquelas manhãs sem grandes acontecimentos, ali por volta do meio-dia, na companhia do velho.



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Do Zeta ao Aleph - 25Set2006 17:20:00




















Distraído, segurei a garrafa. Pesada, de vidro espesso. No rótulo monocromático, além da cor do metal argentino, destacava-se a letra Z, de Zuccardi, tradicional família estabelecida em Mendoza. Meu conhecimento em relação a seus vinhos não passava da letra Q. Q Malbec, Q Cabernet Sauvignon, Q Merlot e o Q Tempranilllo. Todos varietais, ao contrário deste Zeta, 54% Malbec, 46% Tempranillo. Curioso, confesso que queimei as duas primeiras etapas, visão e olfato, e fui direto ao paladar. 

Pobres daqueles que descrevem um vinho como uma "combinação de complexidade e elegância", e ainda se atrevem a escrever no contra-rótulo da garrafa tais palavras desprovidas de qualquer sentido. Melhor seria estampar ali uma imagem. Qualquer uma das muitas que vi naquela prova. 

Tateando no escuro daquele labirinto de sensações, tive a impressão de ver se aproximar o brilho luminoso do Aleph, o ponto de onde se avistam todos os outros. Ali, onde os quatro marcos cardeais fundem-se, vi a espada, o tigre, o sendero bifurcado e o espelho. Vi o cego na mesquita de Surakarta, vi o jaguar que espreitava no escuro da torre e o astrolábio que o persa Nadir Shait mandou atirar ao mar. 

Vi os raios de sol refletidos no mármore dos mil e duzentos pilares da mesquita de córdoba, vi o nascer da aurora e o despertar dos magos. Vi passar o ponto do qual não era mais possível retorno e pude perceber que, a partir dali, física e metafísica, literatura e filosofia, realidade e ficção, não passavam de uma única singularidade. 

Muito mais coisas vi e, quando já acreditava haver nada mais a ser visto, avistei o pequeno riacho e os dois velhos que conversavam à sua margem. Borges dizia a Homero que cada um de nós se define para sempre em um único instante de sua vida. Instante esse em que, cada qual, se encontra eternamente consigo mesmo. Homero respondia declamando as linhas finais do Soneto do Vinho, do próprio Borges: " Vinho, ensina-me a arte de ver minha própria história, como se esta já fora cinza na memória". Nessa hora, o velho brujo veio em minha direção e ofereceu-me o ombro como se, naquele lugar, fôra eu aquele que não enxergava. 

Como um fio de Ariadne, o velho me conduziu de volta por aquele labirinto. Poetas, como os cegos, enxergam no escuro. Poetas cegos, enxergavam duas vezes mais. Durante aquele trajeto, reconheci ao longe a cúpula dourada da cidade dos imortais, os minaretes nevados dos Andes, Buenos Aires e a Plaza de Mayo. 

Numa esquina da Calle Florida, Borges despediu-se e desapareceu no labirinto formado pelas estantes de uma daquelas muitas livrarias. Percorri sozinho o que restava do caminho de volta e, ao abrir os olhos, vi diante de mim uma taça ainda cheia. 

À mulher amada que me perguntava o que achei daquele vinho, respondi fantástico. E nada mais diria sobre o Zeta naquela noite.



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E o resto é silêncio - 01Set2006 23:49:00

Vinhos ingleses são como brujas. Jo no creo, pero que los hay, los hay. Indícios de sua existência remontam ao mito de Maeve, deusa guerreira que ofertava aos seus pretendentes uma taça de tinto, rubro como seu próprio sangue. Somente àqueles que bebiam do seu vinho era concedido o privilégio de se tornarem senhores dos mistérios femininos e, por tabela, do trono da ilha. 

Foi preciso que o grande Julius Caesar ali chegasse para apagar o fogo de Maeve e jogar o feminismo celta na fogueira, a mesma que muito mais tarde estaria reservada aos sutiãs. Em compensação, trouxe junto às suas hostes as uvas do mediterrâneo. 

Tais uvas caíram no gosto dos ingleses. Feito com malvasias originárias da Ilha de Creta, o vinho da Madeira era, no período de Shakespeare, mais popular do que uma black guiness. O negro Otelo que o diga. Por culpa do vinho, Desdêmona caiu de amores pelo mouro de Veneza. Duque traidor, o irmão mais esperto de Eduardo IV escolheu a morte por afogamento num tonel de vinho madeira. 

Dado aos encantos da boa mesa, o bufão Falstaff vendeu a alma ao diabo numa sexta-feira santa em troca de um bom cálice deste vinho. E, tragédia das tragédias, com vinho envenado, Claudio, rei interino da Dinamarca, acidentalmente mata Gertrudes, esposa do falecido rei, no lugar de seu verdadeiro destinatário, o príncipe Hamlet que, eternamente indeciso, acaba morrendo no final. 

E o resto seria silêncio, não fosse a iniciativa de alguns poucos súditos da Rainha Vitória, que teimaram em produzir vinho no império onde havia terroirs de todos os tipos e insolação vinte e quatro horas ao dia. Não obstante as terras frias e chuvosas serem mais adequadas à produção do malte, não obstante a providencial invenção do vinho fortificado português ter permitido que se conservasse por muito mais tempo o vinho adquirido na região do Porto, o mito em torno de um vinho nascido e criado na ilha persiste. 

Dizem que há quem tenha encontrado um bom vinho inglês. Para degustá-lo prepararam, inclusive, uma mesa com design democrático, sem cabeceiras. O problema é que já se passaram mais de dois mil anos e aqueles que foram procurar um cálice especial para degustá-lo até hoje não voltaram.



Fonte: http://pisandoemuvas.blogspot.com/2006/09/e-o-resto-silncio.html